A Teoria de Tudo – Análise

(Resenha realizada em 2015 no blog Cine Explorer e republicada agora, no Roteiro de Notícias, em homenagem à Stephen Hawking).

Inspirado no livro “Travelling to Infinity: My Life with Stephen” escrito pela ex-esposa do cientista Stephen Hawking, o filme “A Teoria de Tudo” conta a história de como ele e sua esposa durante anos, se conheceram, e de como viveram um delicado mas respeitado casamento.

Magistralmente interpretado por Eddie Redmayne, o estudante inglês começa o filme com seu olhar vivaz e jeito tímido, passando a ter um olhar perdido, sem rumo e postura cabisbaixa depois que sofre o acidente que o deixou paraplégico, e, aos poucos, sem a capacidade de falar. É notável como o figurino vai se tornando cada vez maior conforme o tempo passa, dando a impressão de que o ator está definhando. O jeito de falar, gesticular e olhar para as pessoas enquanto tenta conversar, com todos os trejeitos e dificuldades de um real enfermo, fazem de Eddie Redmayne merecedor absoluto do prêmio da Academia que recebeu.

Interessante também a performance de Felicity Jones, que começa o filme com uma disposição recatada e vislumbrada com o jeito do jovem estudante de Ciências, e adquire um semblante caído enquanto cônjuge que toma conta do marido e o ajuda nas mais básicas atividades do dia-a-dia. O vestido azulado que faz parte do figurino da jovem nas primeiras cenas do filme, ainda nos bailes, transmite a serenidade e compreensibilidade da sua personalidade, que vai ficando cada vez mais exausta depois de casada, sendo representada muito bem pelos azuis desbotados e cores acinzentadas e sem vida das blusas e casacos que passa a usar, passando para um figurino surpreendentemente rosa quando ela descobre e se encanta com o rapaz que viria a ser seu novo marido no futuro.

As excelentes interpretações de todos os atores simulam com maestria os momentos de amizade entre o casal, as crianças e o novo companheiro, que serve de ajudante para Jane Hawking cuidar do marido, dando início a um triângulo amoroso interessante, mas não tenso, devido às consciências de cada personagem sobre os sentimentos delicados das situações em que participam.

Como cristão, é magistral ver o respeito reinante num matrimônio entre uma cristã anglicana e um ateu quase convicto (digo “quase”, porque numa determinada cena ele parece estar mais aberto a uma existência divina, reflexão intelectual que faz, depois de também passar por tantas experiências delicadas em sua vida, ao que isso alegra sua esposa notavelmente).

Para os que pensam que o filme tem um viés filosófico ou que tem uma narrativa filosófica, ou galgada nas especulações e teorias científicas de Stephen, se engana. O filme é, antes de tudo, um drama sobre o romance entre um homem enfermo e sua mulher. As conversas entre os dois no início do filme são interessantes e dão o básico, mas não por isso, menos bonito, tom filosófico e existencial do filme, que permeia entre as especulações científicas e religiosas de ambos e a forma divertida e sempre amistosa com a qual debatem e se engalfinham sobre tais temas.

Outro elemento bom de se ver são as interseções entre certos períodos de tempo, feitas pela introdução de cenas que resgatam o clima “filme caseiro”, mostrando a diversão nas brincadeiras entre as crianças e os pais.
Não posso julgar o filme em relação ao seu grau de compatibilidade com os fatos reais, já que não conheço intimamente o casal protagonista, obviamente. Mas enquanto personagens do roteiro em questão, independentemente do quão os personagens reais tenham sido romantizados, eles desenvolvem-se interessantemente ao longo da trama.

Assistir às novas pequenas conquistas de Stephen é um apelo à nossa perseverança e à nossa auto-estima, e a cena final, com certeza, motiva em nós a vontade de viver, quaisquer que sejam as circunstâncias que a vida nos apresenta. Stephen segue vivendo, pela vontade de Deus (espero que ele acredite nisso um dia) e mostrando ao mundo não só o brilhantismo de sua intelectualidade, mas também o brilhantismo da boa vontade de seu espírito, acreditando sempre na beleza da vida.

Fábio Reis é graduado em Design Industrial pela UFAM

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