A Ovelha Branca da Família

O Cartoon Network é um dos canais infanto-juvenis mais conhecidos da cultura popular. Em seus anos dourados, trouxe-nos personagens memoráveis, como um menino gênio de personalidade séria e excêntrica, um fortão loiro cuja única pretensão é conquistar mulheres, uma vaca e um frango que são irmãos, três menininhas que são a salvação de uma cidade inteira contra o crime, dentre outras peculiaridades.

Bem no início no século, entretanto, o estúdio viria a lançar sua série mais anárquica: Sheep Na Cidade Grande, que, não à toa, fez mais sucesso entre adultos do que entre os menores. Suas narrativas simples como as de qualquer série animada infanto-juvenil eram incrementadas por várias gags de humor literal, paródias e humor absurdo, que tornavam o programa único.

Sheep era uma simples ovelha que se perdeu na cidade grande e vivia fugindo da perseguição de soldados da Organização Militar Secreta, que queriam usá-lo numa arma a laser movida a carneiro.

As sacadas engraçadas já começavam com o nome das personagens, que eram trocadilhos, que, infelizmente, se perdiam na tradução para o português, como o General Específico (General Specific, no original) e o Soldado Público (Private Public, no original), que tentavam, de todos os meios possíveis, capturar o protagonista Sheep, com a ajuda de um cientista louco… quer dizer… Irado… porque esse era o nome dele e ele se irritava toda vez que o chamavam de outra coisa que não fosse Irado. E aí estava a genialidade da série: brincar com os clichês dos programas de televisão, com personagens propositalmente estereotipados e com pontos de virada no roteiro que evidenciavam o estilo de entretenimento de várias séries e novelas.

Cada episódio era dividido em três partes, e entre esses capítulos haviam esquetes e comerciais de produtos fictícios. A Oxymoron era a Organizações Tabajara do universo de Sheep, cujos produtos tinham uma eficácia discutível e havia uma série de piadas de senso crítico quanto a alguns clichês do mundo da publicidade.

A personagem mais interessante da série parecia ser o narrador Ben Plotz, que vez ou outra parava para reclamar da previsibilidade dos roteiros que lia, ao mesmo tempo em que se cativava com as histórias.

A arte da série era bem caricata. O estilo de traço das personagens era tão bidimensional quanto suas personalidades. Inspirada nas pinturas de Paul Klee e Pablo Picasso, a estética simplista da série casava bem com sua proposta cômica. O plano de fundo da abertura da série, bem como o design dos personagens remetia a capas de álbuns e jazz de James Flora na década de 40. Não por coincidência, a trilha sonora da série tinha forte uso de trompete.

Sem dúvida, uma das produções mais geniais do Cartoon Network, que não se tornou tão popular quanto as outras talvez devido à sofisticação de seu humor, que era tão despretensioso quanto crítico. Sheep, com o perdão do trocadilho, era, de fato, figuradamente, um cordeiro expiatório para justificar uma enxurrada de esquetes cômicas que giravam em torno dele.

Fábio Reis é formando em Design Industrial

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