A Nova Onda do Imperador: quando menos é mais

Um dos filmes mais diferenciados que a Disney produziu neste século também foi o que teve a produção mais conturbada.

Planejado para ser um épico musical, com o título “O Reino do Sol”, a história do imperador Kuzco quase chegou a ser uma adaptação livre de “O Príncipe e o Plebeu” com um teor dramático à la “O Rei Leão”.

Porém, ao longo da produção, o projeto foi ganhando ares bem menos pretensiosos, com um tom forte de comédia e sátira, com direito a piadas de metalinguagem. A história sofreu alterações radicais, e o resultado foi um filme simples, mas extremamente cativante e divertido.

1. O Protagonista Mal

Até então, todos os longas animados da Disney eram protagonizados por heróis. Kuzco vai na contramão disso. Como governante máximo de uma civilização inca, Kuzco é um imperador narcisista e mimado, que, por um capricho aleatório, quer construir uma espécie de playground particular, justamente em uma área habitada por camponeses que levam a vida ali. Seu plano necessariamente implicaria expulsar aquela gente de suas terras. E ele está pouco se importando com isso.

Isso basicamente sintetiza de maneira hilária o comportamento dos imperadores ao longo da Antiguidade, dos Faraós egípcios aos Césares romanos. O que seriam todas aquelas suntuosas construções representativas dos governantes senão um meio de se congratularem a si mesmos por seus feitos, num ciclo interminável de egocentrismo, em que eles eram não só figurada mas literalmente entendidos como deuses?

E o longa trata de dramatizar isso da maneira mais divertida possível, através da única sequência musical do filme, em que Kuzco é louvado, em meio a danças e bajulações.

Ao ser vítima de um golpe, por parte de sua conselheira Yzma, porém, transforma-se acidentalmente em lhama, tendo que lidar com a ajuda de Pacha, o camponês que desprezara. O que se segue é uma narrativa de redenção de um protagonista que era vilão em relação a um personagem coadjuvante, e passa a ser um amigo deste.

O mais irônico de Kuzco é que ele nunca se torna, de fato, um herói, apenas deixa de ser um rapaz arrogante e cruel para ser um amigo de um camponês. Essa transformação é o que nos basta. O grande herói da história é o camponês Pacha, que o transforma com sua amizade.

2. A Sátira

Aliás, ironia e sátira são o trunfo da narrativa. Pelo seu forte tom cômico, o filme consegue se diferenciar dos demais longas animados do estúdio.

Se a própria personalidade narcisista de Kuzco não bastasse como representação livre dos governantes da Antiguidade (sátira), acrescente a isso o fato de que ele foi parar na própria moradia do homem que ele desprezou (ironia), e chega a “quebrar a quarta parede” na projeção para lembrar o público de que esta história é sobre ele (metalinguagem), além do filme brincar com as convenções incoerentes de grande parte dos filmes de perseguição (paródia).

Com isso, temos uma comédia ímpar, em um formato que praticamente só viria a ser explorado pelo estúdio novamente anos depois, em “O Galinho Chicken Little”, do mesmo diretor, sem a mesma maestria.

3. O Visual

Por ser um filme mais despretensioso, podemos perceber que a própria incursão de elementos em 3D no cenário – uma constante desde a fase do Renascimento Disney – encontra-se aqui mais modesta.

Nada como a Caverna das Maravilhas de “Aladdin”, ou a cena da dança do Salão do Castelo da Fera em “A Bela e a Fera”, ou a fuga da manada de gnus de “O Rei Leão”, muito menos os “surfes entre galhos” de “Tarzan”. “A Nova Onda do Imperador” é tecnicamente bem mais simples, absorvendo a simplicidade da própria narrativa. Por isso também o design de personagens é mais cartunesco, proporcionando mais humor.

O design de produção, porém, é majestoso. O castelo de Kuzco é concebido de uma forma invejável. As esculturas de rostos, os elementos que simulam olhos pontiagudos, os brincos grandes nos figurinos e os símbolos de sol como acessórios decorativos ao longo do castelo são as marcas da identidade do império.

Apesar de não ter uma grande ambição técnica, a própria história e os personagens dão conta do recado.

4. A Adaptação Nacional

E para representar, em nossa versão nacional, os papéis de Kuzco, Pacha, Yzma e Kronk (no original, interpretados pelo comediante David Spade, o ator John Goodman, a atriz e cantora Eartha Kitt e o ator Patrick Warburton, respectivamente), a direção de dublagem contou com a inclusão de atores famosos do nosso país, que, felizmente, fizeram um trabalho excelente: Selton Mello, Humberto Martins e Marieta Severo, além do dublador profissional Guilherme Briggs, respectivamente.

A veia cômica e moderna que o filme dá ao contexto antigo possibilitou que a dublagem pudesse ser mais criativa do que nunca, adaptando expressões populares, gírias e jargões para nosso contexto nacional.

Além de ter uma interpretação extremamente natural, Selton Mello consegue conceber a personalidade malandra de Kuzco de forma ímpar, empregando seus maneirismos cariocas no personagem. O uso de expressões populares como “tô na área”, “peça rara”, “gororoba”, “olho da rua”, “que meda!” são marcantes e tornam o filme ainda mais engraçado para o brasileiro.

É genial a adaptação de expressões como “puh, baby!” para “ah, muleque!”, “sweet guy” para “gente fina”, “scary beyond all reason” para “mais feia que briga de foice” e “oh oh” para “vish”. A começar pelo próprio título da obra, que adapta a expressão “groove” para “onda”, que é uma gíria nacional para designar diversão, equivalente à palavra em inglês.

Em suma, o filme é “muita onda”. Apesar de ficar quase absolutamente diferente da maneira como foi concebido, o longa acabou se tornando um feliz exemplar de que, mais do que nunca, a história e os personagens são o mais importante em um filme.

A despeito de não ter grandes inovações do ponto de vista técnico, em vista do enxugamento que o projeto sofreu para ficar pronto a tempo, o filme consegue ser, ainda assim, visualmente deslumbrante, ganhando em originalidade narrativa, tornando-se uma das melhores animações da Disney deste século.

Fábio Reis é graduado em Design Industrial pela Ufam

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