A Jornada do Herói em Foco de Comparação

Como se sabe, muitas das narrativas presentes na cultura popular têm sua estrutura inspirada no conceito conhecido como “Jornada do Herói”, um modelo de estrutura narrativa, cunhada pelo historiador Joseph Campbell, extraída da comparação de histórias milenares, muitas das quais fundamentaram as principais religiões do mundo.


Porém, a ambiguidade moral da mentalidade do homem na Antiguidade em muito se distancia das compreensões morais básicas que temos de Direitos Humanos hoje em dia; dessa forma, é possível constatar em algumas produções cenas que parecem reformular certos eventos de histórias sagradas, com uma dinâmica moralmente correta de percepção.

Nesse sentido, identifiquei, três cenas de filmes famosos que me remeteram automaticamente a passagens bíblicas do Antigo Testamento, que, a despeito de ter mensagens tóxicas de redenção em algumas narrativas, são pregadas pelo fundamentalismo religioso cristão isentas de qualquer crítica. Dessa forma, é comum que atrocidades sejam validadas pelo proselitismo religioso, por terem sido cometidas “em nome de Deus”.

Como tendo sido criado em berço evangélico, acho bastante pertinente destacar esses exemplos.

1 – Ló e a Estátua de Sal / Indy e George em “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”

Sem dúvida, uma das histórias mais bizarras do Antigo Testamento é a de Ló. A sequência dos acontecimentos desta narrativa, contada no livro de Gênesis, é incoerente de tantas formas que chega a ser absurdo constatar a passividade da Igreja em relação à imoralidade do texto.

Atenho-me à parte em que Deus precisa destruir as cidades de Sodoma e Gomorra. Ló foge com sua família para que não sejam alcançados pela chuva de fogo enviada por Deus e não morram juntamente com a população. Porém, o texto diz que meramente pelo motivo de a esposa de Ló ter olhado para trás enquanto fugia, ela converte-se numa estátua de sal.

Só mesmo mais absurdo do que o fato de Ló ter continuado a fuga mesmo assim (quanto amor, hein?), é a banalidade do motivo desta ter morrido.

É bastante pertinente a ideia deste texto possuir um tom metafórico. Quero crer que, já que é bastante ridícula a ideia de uma literal virada de rosto para trás pedir um castigo fatal, a esposa de Ló tenha, na verdade, resistido em deixar a cidade em razão de algum tipo de apego a um bem perdido ou ao seu lar, o que significaria, em linguagem poética, “olhar para trás”. E que o motivo de sua morte tenha sido ela se preocupar mais com seus bens materiais do que com a integridade de sua família. Certo?

Ahmm… Depende. Isso se também sua morte tivesse se dado por conta da própria destruição de Sodoma, o que não é o caso ainda – para complicar ainda mais as coisas – e sim a conversão desta em uma estátua de sal. Peculiaridade essa que sugere um castigo divino particular a ela alheio ao que estava ocorrendo em Sodoma, e não em virtude do que estava ocorrendo em Sodoma.

O fato de a falta da esposa de Ló ter proporcionado posteriormente que as filhas de Ló chegassem a se permitir a… abusar sexualmente do pai… para gerar descendência, torna a morte da esposa de Ló ainda mais problemática, para não dizer errada mesmo.

Ló e suas filhas

 

O que nos leva a uma cena do final de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” em que Indy e seus amigos estão prestes a fugir do templo que está desmoronando. Porém, George McHalley, desafeto pessoal de Indy, insiste em roubar alguns punhados de tesouro do templo, mesmo com o risco de morte iminente. Indy tenta salvá-lo de várias formas e chama-o insistentemente para sair dali. Quando George decide partir, já é tarde demais, e ele acaba morrendo soterrado.

Eis a dinâmica de interação interpessoal que deveria ocorrer entre Ló e sua esposa para que tivéssemos uma descrição narrativa sensível, coerente, e moralmente substancial. O que não há, e o que resta da superficialidade do texto infelizmente é apenas a sensação de indiferença de Ló em relação à sua esposa, e a crueldade de um castigo divino desproporcional.

2 – Jael executando o Rei Sísera / Luke quase executando Kylo Ren em “Star Wars: Os Últimos Jedi”

Uma das passagens do livro de Juízes descreve a batalha de Baraque, líder dos israelitas, contra Sísera, rei de Canaã. Ao fugir da guerra, Sísera se refugiou na tenda de Jael, mulher de um homem que tinha um acordo de paz para com o rei. Ela lhe hospedou e deixou que ele adormecesse. Porém, ela intentava matá-lo, secretamente. Aproveitando seu sono, ela vai até ele e crava uma estaca em sua face. Sua ação garante a vitória dos israelitas, e posteriormente fora louvada pela profetisa Débora por sua atitude.

Controversa para dizer o mínimo, a atitude de Jael me remeteu ao então mestre Jedi Luke Skywalker, em “Star Wars: Os Últimos Jedi”. Ao ter uma premonição sobre o futuro trágico de seu pupilo Kylo Ren, o velho mestre lança mão de seu sabre-de-luz para matá-lo enquanto dorme no Templo Jedi. Porém, invadido pelo remorso, desiste antes que pudesse mover seu sabre contra ele. Tarde demais; Kylo Ren, com a percepção da Força, pressente sua presença, acorda, e, ao se virar para seu mestre, entende o intento dele, e usa a Força para abatê-lo. Sua decepção para com seu velho mestre sela de vez sua entrada ao Lado Negro da Força.

Ou seja, ironicamente, o que Luke previu foi justamente o destino de seu aprendiz em razão do que ele estava prestes a fazer com o mesmo. Sua tentativa de evitar um mal maior através de um homicídio preventivo seria justamente o que levaria Kylo ao Lado Negro.

O que também nos remete a uma produção absolutamente menos pretensiosa mas igualmente representativa neste assunto, que era a série “As Visões da Raven” da Disney Channel. A conclusão dos episódios girava em torno justamente do fato de que as tentativas de Raven em evitar os acontecimentos que via nas premonições que tinha eram justamente o que ocasionavam os mesmos.

Temos então uma mensagem positiva de que o homicídio, não feito por legítima defesa, nunca se justifica.

3 – A Morte de Sansão / A Morte de Dr. Octopus em “Homem-Aranha 2”

Também no livro de Juízes, temos a história de Sansão, narrativa que contém um controverso conceito de redenção, num atentado aos filisteus que implica a morte do próprio Sansão como sacrifício.

O ato final de Sansão é glorificado como uma conquista mediante suas falhas de ter se deixado seduzir por uma mulher, Dalila, e ter sido enganado por esta, fazendo-o falhar em derrotar os filisteus.

A investida suicida de Sansão constitui um sacrifício por um motivo que não chega a ser exatamente nobre: matar seus inimigos.

A cena em que Sansão pede a Deus que lhe restaure a força sobre-humana, para que possa empurrar as colunas do templo filisteu, me remeteu ao Dr. Octopus no final de “Homem-Aranha 2” em que este, arrependido dos males cometidos, decide se sacrificar pela sociedade, destruindo a invenção que proporcionou o mal que ele mesmo causou.

As motivações de Otto Octavius são, aí sim, exatamente redentoras. Sua investida suicida parte do altruísmo após o remorso de sua auto-consciência, se permitindo “preferir morrer como um homem do que viver como um monstro”. Isso após Peter Parker lhe dizer que “às vezes, para fazer o que é certo, devemos sacrificar as coisas que queremos, até mesmo nossos sonhos”.

Conseguir alcançar sonhos a qualquer custo é exatamente o significado de ser maquiavélico, como diz Maquiavel em sua famosa infame frase de “O Príncipe”: “os fins justificam os meios”. Por isso, a frase sábia de Peter faz com que o Professor Otto caia em si. E o até então vilão se mostrou disposto a morrer para evitar que a sociedade morresse por sua própria culpa.

O paradoxo é este: Sansão morreu para matar seus inimigos. Dr. Octopus morreu para evitar a morte dos outros. E a cena de Octopus empurrando as colunas metálicas de sua invenção com seus tentáculos biônicos conclui brilhantemente o filme, e lembra muito a conclusão do trágico herói bíblico.

Dessa forma, narrativas milenares carregadas de um senso ético puramente nacionalista e fundamentalista, acabam sendo remodeladas de maneira a ganhar contornos ético saudáveis. E, com certeza, muitos exemplos como esse podem ser reconhecidos.
A partir de agora, veja se consegue reconhecer alguma inspiração mitológica ou bíblica, nas produções que assistir.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *