A genialidade de “Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância)”

Fama. Prestígio. Auto-estima. O conceito de arte. Arte pura. Arte comercial. Verdade. Ficção. Até onde a verdade é fictícia, e como a ficção pode evocar a verdade? Como entender a relevância do que é banal e do que é objetivo? Esses e tantos outros temas são abordados de maneira magistral por “Birdman”, filme vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2015.

Filmado em um aparentemente infindável plano-sequência, o filme nos apresenta os bastidores excêntricos de uma produção teatral, passando por todos os recônditos de um teatro em que acontecerá a tão esperada estreia de uma peça dirigida e estrelada por ninguém menos que Riggan Thomsom, um ex-astro de uma franquia blockbuster em que interpreta o super-herói Birdman, adorado pelo grande público.

Porém, após tanto sucesso, Riggan se vê num impasse financeiro cuja sorte será investida na peça, que também significará sua autorrealização enquanto ator. Afinal, quer exorcizar de si o personagem que lhe deu tanto prestígio porém limitação dramática, e provar para si mesmo – ou para os críticos de arte – que pode ser um ator de obras sensíveis e intelectuais.

Valendo-se da convencional representação do Teatro como o ambiente legítimo da arte (berço das próprias artes cênicas), e do Cinema como a cultura de massa cujas superproduções de verão teoricamente apenas imbecilizam ou marginalizam a plateia ao invés de elevar o espírito, o diretor Alejandre Gonzalez Iñarritu parece ter uma visão estreita e limitada sobre o que seja o conceito de arte, valendo-se da retrógrada separação entre “filme de arte” e “filme comercial” (como se um filme comercial não pudesse ser original e relevante, e um filme autoral não pudesse ser cheio de vícios de linguagem).

Entretanto, mesmo assim, o diretor dirige sua crítica a vários segmentos – à indústria cinematográfica, aos críticos, ao público, aos atores “verdade”, etc – entregando um filme sublime, cheio de autocríticas, que nos levam a nos importarmos mais com a integridade psicológica das personagens do que pelo que elas almejam para si.

Carregado de metalinguagem, o filme representa um vórtice interpretativo singular. Desde a história do conto que Riggan escolhe para adaptar para o teatro – que tem tudo a ver com a sua própria vida – até a forma como Birdman representa o alter-ego de sua vaidade, fazendo do poder de voar da personagem uma alegoria do seu sucesso e prestígio, que chega a lhe perturbar em pensamentos.

O filme brinca constantemente com a percepção do espectador em várias cenas, sugerindo superpoderes do próprio Riggan enquanto Riggan, que nunca fica totalmente claro se é real ou fruto de sua mente (apesar da segunda interpretação ser mais plausível). O filme parece querer ser complementado pela imaginação do espectador em várias cenas sugestivas, proporcionando uma experiência única de interação do espectador com a obra.

A metalinguagem já começa no próprio elenco do filme, formado por Michael Keaton (o Batman de Tim Burton), Emma Stone (a Gwen Stacey dos filme “Espetacular Homem-Aranha”), e Edward Norton (o Hulk que aceitou fazer apenas um filme do UCM, passando a bola posteriormente para Mark Ruffalo, para sair do âmbito dos filmes “caça-níqueis”; seu papel no filme é uma versão exagerada e louca do próprio Norton).

Inovador, louco, sombrio e sensível, “Birdman” tem interpretações tão formidáveis, diálogos tão naturais, e um roteiro tão frenético de situações e detalhes que nos mergulham no caos psicológico das personagens envolvidas, que não tem como não ficar encantado com essa obra tão única. Destaque para a bela fotografia e para a direção.

Com um título que já brinca com a questão da objetividade dos títulos dos grandes blockbusters, seguido de um pretensioso e filosófico subtítulo hilário entre parênteses, a obra consegue nos sensibilizar e confundir, dentro de si mesma e do que ela representa, já que, apesar de ser uma nítida alegoria da vida do próprio Michael Keaton (adorado por ser o Batman, apagado durante muito tempo, até estrelar um filme pretensioso como o próprio “Birdman”), o próprio, ainda assim, se permitiu, ironicamente ou não, posteriormente, ser o Abutre no filme do Homem-Aranha, dando àquele final enigmático do filme mais uma dentre tantas interpretações possíveis.

O que é bom, para distanciar a ideia de que Alejandre Gonzalez Iñarritu seja só um tiozão que não curte filmes pipoca.

“Birdman”, portanto, é um filme não apenas para ser contemplado, como também desvendado.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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