A Boneca Momo: Fake News e a Velha Histeria Coletiva

Apesar de “fake news” ser uma expressão cuja popularidade é relativamente nova, as fake news (notícias falsas) em si são um fenômeno que existe há muito tempo. E são até capazes de mudar rumos sociais. Inclusive, chegaram a ditar o rumo das últimas eleições presidenciais, por exemplo.

Mas por alguma razão curiosa – provavelmente por insatisfação de pais que não conseguem ser bem-sucedidos em criar seus filhos – o universo infanto-juvenil é sempre um palco propício para propagação de notícias falsas, que sempre costumam gerar uma histeria coletiva em torno delas, por parte de pais impressionáveis.

Histerias essas, que, ironicamente, tornam-se elementos mais nocivos aos filhos do que os próprios supostos objetos de denúncia (e é importante enfatizar a palavra “supostos”, porque, geralmente, as insinuações feitas são totalmente falaciosas, sem nenhum embasamento real). Isso porque, frequentemente, essas notícias sugerem uma malignidade em torno de conteúdos que teoricamente são essencialmente positivos para crianças, mas que podem ter – teoricamente também – alguma periculosidade oculta em si.

Assim, muitos pais negligenciam o fato de que esse tipo de insinuação, sem nenhuma comprovação consistente, apenas ajuda a confundir a cabeça das crianças em relação àquilo que apreciam, prejudicando o modo como elas lidarão e interagirão com aquele material a partir daquele momento.

O Caso Momo

E quando falamos especificamente do caso Momo, as vítimas da vez foram os conteúdos do YouTube Kids, acusados falsamente, por matérias sensacionalistas, de exibirem um vídeo da famosa boneca Momo ensinando os espectadores mirins a se suicidarem.

O fato é que realmente um vídeo começou a circular nas redes sociais contendo trechos de conteúdos do YouTube Kids que foram SOBREPOSTOS a trechos que algum indivíduo de má fé produziu contendo imagens da boneca Momo ensinando as crianças a se cortarem com alguns tipos de objetos.

Os dois trechos foram juntados em um programa de edição, e… voilá, temos um vídeo aleatório publicado como anexo de uma notícia falsa que é compartilhada nas redes sociais e tida como legítima por pais sem nenhum tipo de senso crítico, que, preocupados em compartilhar a notícia com conhecidos em grupos de Whatsapp e Facebook apenas ajudam aquilo a se proliferar ainda mais, contribuindo para que mais pessoas caiam no golpe, que não passou de uma espécie de trote… do pior gosto possível.

Até que tudo fosse devidamente esclarecido – com uma nota do próprio YouTube informando que não há indícios de algo dessa natureza em nenhum vídeo da plataforma -, com certeza, muitos pais já haviam desnecessariamente alarmado seus filhos ou proibido os mesmos de acessarem o YouTube Kids (ao invés de redes sociais como Whatsapp e Facebook); enquanto outros tiveram que lidar com filhos assustados e traumatizados com a própria bizarrice da figura, bem como de suas supostas “ações”.

O que nos leva a dividir a questão em partes.

A Boneca

Momo não passa de uma bizarra escultura chamada “Mother Bird” (Mãe Pássaro), feita pelo artista japonês Keisuke Aiso, e que, até então, se encontrava em um museu em Tóquio, no Japão.

O compartilhamento da imagem da escultura em si já é controverso, pois estamos falando de um rosto que pode realmente traumatizar crianças, pela própria excentricidade visual da criatura, que é perturbadora.

Por isso, os pais e a imprensa deveriam EVITAR mostrar a imagem para os mesmos (se os mesmos já não a tiverem visto direta ou indiretamente enquanto navegam na web, claro). É importante enfatizar isso, para que pais não acabem por apresentar algo que não deveriam, pois não é incomum que imagens bizarras de criaturas fictícias possam perturbar crianças. Palhaços, alienígenas, bruxas, personagens que são vilões de filmes, dependendo de sua composição gráfica, podem despertar medos tipicamente infanto-juvenis, tal qual o medo do escuro ou o de se desprender muito tempo dos pais em certos ambientes (que são medos que podem ser independentes ou gerados como desdobramentos do primeiro medo).
Por isso, antes de compartilhar a imagem para terceiros ou mostrá-la para os próprios filhos, os pais deveriam primeiramente perguntar simplesmente se os filhos se lembram de terem visto algo inapropriado ou estranho enquanto estavam assistindo vídeos.

Sim, porque um convite a uma tentativa de suicídio não é algo que chega a ser exatamente razoável, para que uma criança veja e deixe passar, como se tivesse visto um anúncio de bombom de chocolate, ou mesmo a Bettina da Empiricus…

É importante que pais tenham consciência de que crianças não são seres desmiolados. Elas possuem um intelecto, e, às vezes, conseguem ser até mais racionais do que os próprios adultos. Uma criança que já tenha passado de uma idade pré-escolar sabe o que é um convite insano e absurdo quando vê um, e provavelmente ela mesmo contaria aos pais caso tivesse visto algo assim, pois coisas desse gênero proporcionariam mais medo do que meramente curiosidade em fazer qualquer coisa que seja. Crianças não são amebas em carne e osso… Não possuindo nenhuma deficiência cognitiva, são seres altamente capazes de reconhecer perigos de natureza básica, a partir de certa idade.

A Lenda Urbana

Em meados no ano passado, (alguma criatura que não tem o que fazer da vida) um indivíduo “fez o favor” de criar uma verdadeira lenda urbana em torno da escultura, como se ela fosse uma criatura que de fato existisse, e que teria ainda um contato telefônico ao qual se as pessoas ligassem poderiam ouvir uma voz bizarra a falar com elas, a quem o contato poderia compartilhar conteúdos aleatórios, ou ameaçar utilizando dados pessoais dos familiares da pessoa, ou pior: promover desafios que levariam crianças à auto-mutilação ou ao suicídio.

Temos então o equivalente mais novo das Marias Sangrentas do passado. Figuras sempre presentes no imaginário de quem não tem muitas coisas concretas com as quais se preocupar.

Vários youtubers chegaram a fazer vídeos reagindo a uma suposta ligação para a Momo. Todos eles visivelmente oportunistas e sensacionalistas, feitos mais para entreter do que para qualquer outra coisa, não resultando em nenhuma ameaça ou tragédia comprovadas (e com ligações nitidamente forjadas).

Os supostos casos de suicídio de crianças noticiados pela imprensa associados ao desafio Momo – que talvez sequer exista – parte sempre de afirmações vagas sem nenhuma prova consistente. Talvez porque conteúdos dessa natureza, por serem criminosos, muito provavelmente não existiriam na web convencional, e sim em fóruns da deep web, espaço criminoso e ilegal dentro da web que existe justamente com o fim de veicular absurdos desse tipo… e para quem tiver a destreza – e, aí sim, curiosidade – necessária para acessá-los (o que também não é tão fácil). Ou seja, não é com o YouTube Kids que os pais devem se preocupar, nesse novo caso.

Os jovens que chegaram efetivamente a serem entrevistados pela imprensa sobre o caso apenas afirmaram terem ligado para a Momo mas sem serem atendidos. Ou seja, mais fumaça do que fogo.

O Retorno de Momo

Passados alguns meses, a personagem imaginária volta a aparecer… não no YouTube Kids – como foi irresponsavelmente noticiado pela mensagem falsa e replicado em alguns órgãos de imprensa mais descuidados – mas na própria mensagem alarmista em si, veiculada em redes sociais. Um verdadeiro “fantasma” criado para aterrorizar pais crédulos, que, ainda por cima, difama o YouTube Kids, uma das plataformas mais seguras de produção e exibição de conteúdo infantil. E sim, isso pode evidenciar interesses antiéticos na mídia tradicional para difamar uma plataforma da internet.

É claro que conteúdos que promovem ações antiéticas ou autodestrutivas podem ser feitos e circularem, nas REDES SOCIAIS, pois essas plataformas não possuem filtros rígidos de regulação de conteúdo. Por isso, os pais devem estar sempre atentos a tudo o que seus filhos consomem.

Porém, essa falta de filtragem não se aplica à plataforma do YouTube, que tem diretrizes a serem obedecidas para que vídeos sejam passíveis de serem postados na mesma. O YouTube Kids, seção da plataforma voltada especialmente a conteúdo infantil, por sua vez, tem regras mais rígidas ainda. Você não encontraria um clipe da Anitta no YouTube Kids, quanto mais um vídeo de alguém ensinando o suicídio, algo que não passaria nem pelos filtros do YouTube normal, nem da web no geral, quanto mais no YouTube Kids; assim como você não encontraria vídeos no YouTube Edu que não sejam exatamente vídeos didáticos e educativos.

E ainda que alguém sugira a intervenção de hackers no processo, isso constitui mais uma problemática. Além de se saber que isso não é possível dentro de vídeos já publicados na plataforma, essa sugestão teria que ser devidamente esclarecida pelos pais de plantão e pelos órgãos de imprensa, e aprovada por especialistas em informática, não simplesmente alegações soltas e sugeridas.

Do contrário, a mensagem que você está passando para o seu filho é a de que os próprios produtores de conteúdo responsáveis por tudo o que pode ser exibido no YouTube Kids – sendo originalmente produzidos para serem publicados na plataforma ou não – seriam desumanos o bastante para promover o suicídio de seus espectadores. Ou para estarem acompanhados a isso, dentro de uma rede em que não se faz nenhuma filtragem responsável entre seus vídeos e convites literais ao suicídio.

Nem é preciso dizer o quão grave e absurdo isso é. Isso faria tanto sentido quanto afirmar que, durante a programação do Discovery Kids, aparece um convite do Estado Islâmico ao seu filho, ou que, enquanto seu filho assiste a um filme infantil numa conta particular para menores no Netflix, aparecem trechos de um filme pornô.

Mas muitos propagadores de perigo estão pouco preocupados com as particularidades de uma afirmação, e acabam, por isso, prejudicando muito mais seus filhos pelo horror do que protegendo-os, pelo bem da cautela, quando a mesma não está amparada pela racionalidade.

Além do mais, estariam potencialmente contribuindo para que um indivíduo criminoso, ao ver a mensagem, possa se sentir incentivado a, de fato, praticar algo semelhante.

Desnecessário ressaltar que, mesmo o YouTube, assim como qualquer outra rede na web, nunca é 100% seguro. Por isso, os pais devem sempre obter, sem exceção, conhecimento do que seus filhos consomem; inclusive obter conhecimentos básicos sobre qualquer plataforma de conteúdo que seus filhos consomem, até mesmo para saber reconhecer uma nítida notícia falsa quando se vê uma.

Já vi esse filme em algum lugar…

Como já dito, não é de hoje que notícias falsas relacionadas à cultura popular infanto-juvenil surgem, talvez mais para difamar aquilo contra o qual se nutre algum ódio, do que por compromisso com a verdade.

Um grande exemplo da década de 1990 foram as teorias conspiratórias associadas às chamadas “mensagens subliminares” – leia-se “easter eggs de mal gosto” – que estariam contidas em músicas reproduzidas ao contrário, comerciais de TV, logos e até filmes e desenhos animados. Na época, era comum a pais e líderes extremamente puritanos acreditar que um material não poderia fazer fama simplesmente por mérito próprio. Ele tem que estar associado a algum “pacto com o diabo”, que seria evidenciado através dessas tais mensagens subliminares, com o fim de…. direcionar maldições gratuitas às pessoas… porque… porque sim. “Porque ser famoso é ruim e quem é só pode estar em cumplicidade com o tinhoso.”

Dessa forma, comunicadores e líderes religiosos paranoicos conseguiram literalmente afirmar que a Disney – o maior império do mundo do entretenimento e o único conglomerado dos estúdios hollywoodianos a ter como carro-chefe de sua produção animações e produções voltadas à família – era uma empresa dedicada à prática do Satanismo… Isso mesmo.

Evidências? Imagens internas? Vídeos? Relatos de pessoas que trabalharam no estúdio? Nhééé… Não. Naquela época, bastava-se fazer uma afirmação que conquistasse ouvintes, e, pronto, você tinha sua denúncia (e parece que é assim até hoje). Num dia, uma criança em algum lugar do mundo foi rebelde com os pais; essa criança, por acaso, assistia muitos longas da Disney; logo, a culpa era da Disney. Não só Spock, mas até mesmo Kirk chamaria isso de “ilógico”, e ele estaria totalmente certo. Talvez vulcanos sejam mais sensatos que os terráqueos, afinal.

É impossível pensar nas motivações deste “caso Momo”, e não suscitar a ideia de que quem fabricou a falsa notícia poderia não apenas ser um “trolador” insano de plantão, como também um pai ou mãe que queria muito assustar seus filhos viciados em YouTube para pararem de usar seus smartphones, e compartilhar essa “boa nova” com terceiros, achando que essa era a forma mais sensata de advertir os filhos contra o vício em dispositivos móveis ou em vídeos. Lembra da Maria Sangrenta citada no início deste texto? Agora, passe a considerar o Boi da Cara Preta… figura medonha criada por pais para educar a criança por intermédio do medo. E poderemos chegar a sugestões do que levaria alguém a fazer esse tipo de coisa. Esperemos realmente que não seja isso…

O que o YouTube Kids sofre agora lembra ligeiramente as calúnias contra a Disney no passado. O mais famoso propagador de ódio contra a Disney foi o insano pastor e missionário Josué Yrion, que fez o favor de incorporar essas fake news aos seus sermões (se é que dá para chamar aquilo de sermão). E junto às acusações mais mentirosas do mundo vinham verdadeiros “vômitos” de preconceito contra outras religiões, informações desconexas e argumentos ad hominem. Como se esquecer da insinuação peniana numa das torres do castelo de Ariel de “A Pequena Sereia”; da suposta homossexualidade de Scar, de “O Rei Leão” (como se isso fosse um problema caso fosse verídico, o que é invalidado pela vilã do filme seguinte, a própria esposa de Scar); ou da acusação de Aladdin ter subliminarmente pedido para crianças abaixarem suas calças, e depois, se suicidarem? (a primeira acusação, pelo menos, foi embasada em uma cena do filme cujo diálogo uma mãe qualquer teria entendido errado; a outra acusação nem se deu ao trabalho de alegar a cena de referência).

E, apesar de mentira ser um pecado, na mente de um pastor assim, tudo isso valeria a pena, se fosse para conduzir as crianças “a se voltarem a Deus” (como se ouvir uma pregação que não passa de uma série de acusações – feitas em nome de Deus – elevasse mais a alma de alguém a Deus do que assistir um bom e velho filme com lições de moral básicas para crianças).

E o pior dessas insinuações é elas ganharem tanta proporção a ponto de sacrificarem a percepção dos pais em relação à própria essência do conteúdo abordado (além da falta de sentido de acreditar que satanistas são pessoas que dedicariam sua vida a aprender arte e animação, além de contadores de história que se preocupariam em adaptar alguns dos maiores clássicos da literatura mundial para o cinema, apenas para terem a chance de mostrarem um objeto fálico para o seu filho).

Hoje em dia, quase nada disso é lembrado (e que bom!), mas realmente eu tenho que “agradecer” esses líderes por estragarem grande parte da minha infância, disseminando mentiras que nem a mídia séria ou pessoas racionais foram capazes de levantar uma voz contrária.

Diferentemente do caso Momo – um desafio que seria verificável -, as “mensagens subliminares”, por sua vez, em sendo coisas ocultas, não eram passíveis de serem questionadas, pois, afinal, seriam coisas feitas para não serem percebidas.

Enquanto isso, crianças da época – como este que vos fala – foram ensinadas a pensar que deveriam – porque sim – relativizar a bondade de Aladdin ou de qualquer outro personagem que seja o herói de uma narrativa, por causa de supostos áudios totalmente ocultos e aleatórios que não têm nada a ver com o roteiro da história em si e cuja existência é apenas nada mais do que alegada.

Às vésperas do lançamento do remake do live action de Aladdin, esses insanos episódios nem são mais lembrados pelo público em geral, graças a Deus, mas, sim, é louco pensar que, uma vez (por anos a fio, na verdade), quiseram fazer do Aladdin uma espécie de Momo. Sim, o Aladdin! E não há palavras para descrever o quão insanamente ridículo isso é. Idiotices que não elevam nem conscientizam em nada a alma de um ser humano, além de fazer um amedrontamento psicológico vazio e sem sentido.

E a única razão pela qual é importante relembrar desses episódios de histeria coletiva é sempre se conscientizar do quão nociva pode acabar se tornando a preocupação de líderes “pelo bem das crianças” e do quão questionável pode ser o senso crítico dos mesmos, contribuindo mais para assustar do que para proteger.

Xuxa, Fofão, Pokémon, animes, Nintendo, DC, Marvel… nem o dinossauro Barney e a boneca Barbie ficaram ilesos de acusações levianas relacionadas a Satanismo na época. Esse tipo de falácia deveria ser criminalizada. É bizarro pensar que tanta desinformação foi espalhada sem que nenhum dos envolvidos responsáveis por pregações, ou programas de TV ou sites propagadores disso fossem penalizados, e que as informações fossem devidamente desmentidas ao grande público.

É óbvio que existem coisas potencialmente nocivas em produções infanto-juvenis. Mas é preciso saber discernir entre:

a) um easter egg de mal gosto (isso nem deveria ser levado em consideração como denúncia, visto que é algo que não está incorporado à narrativa da produção, e seria o equivalente a banalidades imaturas, sexuais ou não, que todo mundo pode ver desenhadas na parede de um banheiro público);

b) uma piada adulta sutil – para os pais de plantão se identificarem com a produção, e as crianças apenas “coçarem a cabeça” e entenderem mais tarde – nada que tem o potencial de traumatizar ninguém, a menos que alguém insano faça um alarme tóxico dizendo que aquilo é uma maldição de outra dimensão do multiverso, sendo o alarme em si aquilo o que realmente traumatiza;

c) uma ação tóxica de uma personagem abordada ou endossada como algo razoável (de todas as três, essa é a única efetivamente importante para problematizar todo o teor de uma produção).

De tudo o que a Disney foi acusada, a ÚNICA verdade comprovada foi a infame foto de uma mulher nua inserida no fundo de um cenário durante uma cena de “Bernardo e Bianca”, o que apenas mostra, no máximo, que havia um engraçadinho envolvido na produção, e não que a empresa pratica satanismo! Além do mais, o busto nu de uma mulher não é nada que uma criança já não tenha visto em um quadro renascentista ou coisa parecida. O fato da imagem ser imperceptível a olho nu por aparecer apenas em alguns frames torna tudo ainda mais ridículo. E quanto a acreditar que imagens aleatórias podem “ir para o subconsciente” e representar algum mal, isso só mostra o quão as pessoas ainda são ignorantes em relação a um conceito de mensagem subliminar que é herdada da paranoia da Guerra Fria, em que se acreditava que um indivíduo possa praticar ações inspiradas indistintamente de sua consciência, algo que é mais do que absolutamente refutado pela Ciência, e que uma rápida pesquisa séria poderia mostrar em questão de minutos. De novo… as irrefreáveis fake news. Sobre a tal infâmia, a própria Disney tomou medidas quanto à questão, e nunca, em toda história do estúdio, se teve outro registro de algo parecido, senão as informações forjadas de alguém que deve ter um problema muito grande com a Disney.

Como mentira tem perna curta, hoje em dia, essas acusações são literalmente esquecidas, como um punhado de poeira que antes pairava sobre o solo e agora abaixou. E enquanto essas figuras mentirosas somem, a Disney continua livremente na ativa, cativando a infância de várias e várias gerações. E esperemos que continue assim. E que os pais tornem-se cooperadores e não antagonistas da razão.

Nenhum ser humano razoável afirmaria para uma criança que sua mãe carinhosa e responsável seria capaz de lhe fazer mal. Da mesma forma, não é saudável que as mães e a imprensa afirmem que plataformas dedicadas a fazer bem ao seu filho querem o mal dele. Sem provas, sem conhecimento, sem nada.

A infância dos filhos agradece.

E quando aparecer um desafio real?

Muitas vezes, em vez de pais analisarem problemas com os filhos através de uma auto-crítica sobre a criação dos mesmos, é mais fácil colocar a culpa em coisas externas, se esquecendo de que nenhuma mídia tem o poder de influenciar mais os filhos – para bem ou para mal – do que o próprio seio familiar e as amizades. E é precisamente mais sob essa ótica que devemos conduzir nossa compreensão sobre como lidar com problemas como a depressão e a vulnerabilidade ao suicídio.

Desafios criminosos existem, mas precisamos saber corretamente como identificá-los. Muitos podem estar acontecendo, inclusive, neste exato momento, entre conhecidos que se comunicam, por vias pessoais ou por redes sociais, eventualmente sem que estejam ganhando a devida proporção para serem noticiados pela imprensa.

E mais, devemos nos questionar o porquê de uma pessoa se sentir incentivada a se suicidar, caso esse incentivo de fato acontecesse, já que não é algo remotamente saudável alguém ser meramente um obediente a um incentivo. Não a algo dessa natureza, como a morte.

Esse incentivo apenas acontece em uma alma já predisposta a supostamente aceitá-lo. E isso dificilmente ocorrerá por intermédio de um hacker ou de uma empresa, e sim a partir de uma relação de cumplicidade com uma pessoa tóxica previamente estabelecida (por intermédio ou não de vias virtuais). Não existem Momos, existem amizades ruins.

E as únicas perguntas, nesse caso, mais pertinentes a serem feitas além de “como evitar que meu filho veja coisas impróprias?”, é “o que faz alguém incentivar pessoas a se suicidarem?” e “porque as pessoas estariam suscetíveis a se suicidar?” Um vazio existencial sempre tem raízes na formação e criação próprias da pessoa, não em algo gráfico que tenha passado pela sua visão – como no caso de “mensagens subliminares”, por exemplo – ou em desafios aleatórios que aparecem em ambientes totalmente alheios ao que isto representa.

Refletir sobre isso nos levaria às raízes das questões que poderíamos efetivamente evitar. Inclusive, potencialmente evitar grandes tragédias, tanto as relacionadas ao suicídio quanto as relacionadas ao homicídio, como as tragédias recentes do colégio em Suzano e do atentado na Nova Zelândia, em que games – independentemente de serem moralmente controversos ou não – foram a propulsão de um motor maligno que já estava previamente estabelecido dentro do coração dos indivíduos que cometeram esse massacre.

No mais, o mundo já é cruel demais sem as fake news. Com elas, ele torna-se pior ainda. Fake News feitas mesmo para combater algum tipo de mal, ainda assim são fake news. A verdade deve sempre prevalecer, e, assim, só assim, as verdadeiras causas dos males que assolam o mundo serão devidamente encontradas.


Fábio Reis

Fábio Reis

Graduado em Design Industrial pela Ufam

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